As vidas que deixamos de viver

by - 12:31


Essa semana, depois de ler o texto mais recente que o Contardo Calligaris escreveu para a Folha de São Paulo, fiquei pensando no tema da matéria: as vidas que deixamos de viver. Dizendo de modo resumido, o texto do Calligaris fala sobre as escolhas que tomamos ao longo da vida e que, consequentemente, nos levam a uma vida "x". A questão é que ao escolher cursar Psicologia ao invés de Computação, por exemplo, eu deixei de viver toda uma vida que poderia ter tido. São aqueles famosos "e se" que vivemos pensando. Claro que, no texto, ele faz toda essa reflexão para nos dizer que essa coisa de pensar nas vidas que deixamos de viver faz com que coloquemos nossas expectativas e tracemos planos para as crianças, que são nossa continuação na terra. Dizemos que as crianças possuem um potencial e isso, segundo o autor, acaba reduzindo um pouco o elemento esforço que todos nós devemos ter para conquistar alguma coisa. Se conseguimos, é porque tínhamos potencial para isso. Mas enfim, não é esse o ponto que me fez refletir mais.

A questão é que toda essa coisa de vidas que não vivemos me deixou reflexiva. O Calligaris considera importante revisitarmos esses caminhos não trilhados, mas de uma forma positiva, como uma forma de auto conhecimento ou para relembrar que escolhemos tal caminho porque, naquele momento, ele foi mais atraente. Acho isso válido, com certeza. Mas o problema disso - e que ele também fala na matéria - é que, às vezes, analisamos essas escolhas com pesar, como se lamentássemos por ter escolhido o curso "a" ao invés do "b" ou aceitado a proposta "y" ao invés da "z". Para Calligaris, isso nos empobrece e eu tenho que concordar com ele.


Ficamos mais pobres de espírito toda vez que lamentamos por escolhas feitas. E eu particularmente faço isso, com certeza. Não posso negar. É mais fácil reclamar, lamentar e praguejar do que admitir que a escolha foi sua e você a fez porque quis. Afinal de contas, sempre podemos escolher. Claro que isso não significa que somos livres e blá blá blá, mas as opções existem e você pode aceitá-las ou bater o pé e dizer que não quer. Pelo menos na maioria das vezes, é claro.

E para combinar com esses pensamentos e com a mania que temos de reclamar de tudo, acabei me deparando com um poema que representa bem isso. Um professor recitou-o na aula e eu achei fantástico justamente por que é direto e diz basicamente que ao longo da vida você tem várias opções, mas se acha todas difíceis e não consegue fazer nenhuma delas, deve seguir sua vida como você já é, uma criatura resmungona. Deixo o poema aqui para vocês a título de reflexão, acho que vale a pena.

Rondó – por Hans Magnus Enzensberger
Falar é fácil.

Mas, não se comem palavras.
Portanto, faze pão.
Fazer pão é difícil.
Portanto, torna-te padeiro.

Mas, num pão não se mora.
Portanto, constrói casas.
Construir casas é difícil.
Portanto, torna-te pedreiro.

Porém, em cima de uma montanha não se constroem casas.
Portanto, transposta a montanha.
Transportar montanhas é difícil.
Portanto, torna-te profeta.

Porém, os pensamentos não se ouvem.
Portanto, fala.
Falar é difícil.
Portanto, torna-te o que és

e segue murmurando, só para ti,
criatura inútil.

Imagem: we♥it.

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3 comentários

  1. Nossa muito lindo o post. Fiquei também reflexiva. Eu tenho essa péssima mania de reclamar das coisas e vivo me policiando para não culpar as pessoas e situações por escolhas que eu fiz. Acho que é um exercício diário. O poema também é maravilhoso. Parabéns =)

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  2. Já dizia a música, "a cada escolha uma renuncia, isso é a vida!"
    Primeira vez que comento por aqui mas já virei fã do seu blog, a cada post me identifico mais.

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  3. Escolhas são o que nos movem,sejam elas analisadas futuramente como boas ou ruins, mas de alguma forma elas nos movem! Acredito que devemos fazer com que todas elas nos movam adiante, para uma vida melhor. Reclamar das escolhas tomadas sempre acontece com qualquer um, quando eu me pego em momentos como esses tento ser positiva e resmungar menos.
    Esse poema é muito bom chega até ser divertido, enquanto puxa orelhas! rsrs
    Abraço! \0

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