Sentido perto do coração...

17 de janeiro de 2009 //





Despertou às duas da madrugada. Banhava-se em seu próprio suor e tinha a certeza de que acontecera novamente. Um deja vu, o mesmo pesadelo de sempre e a mesma sensação de desamparo.



Assegurou-se de tudo à sua volta. Tudo que viu foram cortinas brancas esvoaçantes por causa do vento forte da madrugada chuvosa. Um céu cinza como estanho. Ela sentia. Sempre gostou da chuva e das tempestades. Sentia como se seu interior fosse revelado pela natureza. Como se a tempestade externa fosse projeção de seu interior.



Sentou-se na varanda com uma xícara amarga e quente de café. Pôs-se a pensar. Pensamentos batidos em liquidificador. Iam além da linha do horizonte que via da sua vigésima varanda fria.



- Como ele estaria agora? Dormindo ou igualmente tempestuoso como eu? (um fragmento afiado de seu pensamento se mostra)



Sentia saudade daquele que, embora sem grandes atributos para a maioria, era o ser ideal aos olhos dela. Via claramente, como uma tela pintada à óleo, o corpo quente dele colocado ao seu lado na cama. Adorava vê-lo aos braços de Morhpeus.



No escuro, acreditava ela, as coisas mostram-se de uma beleza descomunal. Assim era com o corpo dele. Tocava os cabelos finos em desalinho e estes escorriam pela palma de suas mãos como música derretida por entre seus dedos. Sentia o perfume que emanava deles e embriagava-se. Era diferente. Texturas e cores e odores misturavam-se. No escuro era mais belo. Podia tocá-lo e realmente senti-lo.



- Onde havia ficado tudo isso? (outro fragmento, desta vez afiado como lâmina brilhante, mostrava-se diante dela)



Ela sentia. Ah, como ela sentia saudade. A esta altura, o sol já mostra sua face dourada. Batidas na porta. Um sobressalto, susto, alegria, explosão. O coração pula e faz festa dentro dela.



- É ele, é ele! (grita outro fragmento)



Abriu a porta e os olhares cruzaram-se como feixes de luz. Ambos com olhos cansados. A noite foi de tempestade para ambos. Abraçaram-se, uniram-se a ponto de quase serem um único corpo.



Agora, ambos viviam a bonança. Reencontro. Pousaram os corpos no sofá e, depois de encontrarem-se novamente dentro daquele apartamento metodicamente arrumado, entregaram-se aos sonhos um do outro.



- Como é bom senti-lo de volta. (exclamou o fragmento mais suave de sua mente agora branca)







- Luciana Brito -



10 comentários:

  1. Sempre achei que nossos desejos e pensamentos não são únicos e focados, mas repartidos em fragmentos. Assim como você colocou.

    Um abraço.

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  2. um de seus textos mais lindos Lu e mais tocante, parabens

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  3. Lucy,

    que texto belo. Bem escrito do início ao fim. Tom de poesia em cada palavra. Fui lendo como quem vive a cena.

    Eu achei bonitas as lembranças. A forma como ela sentia falta, desenhando ele no escuro. Saudade tem que ser bonita, assim.

    E esses fragmentos, cada um sussurrando de um jeito pra ela, no fim formam um todo. Porque ela, sem ele, sentia-se incompleta. Ele junta as partes, faz ela se sentir mais inteira. Acredito que, com ele, seja igual.

    É um texto bonito, e basta.

    Beijo, Lucy!

    P.S.: Adicionei você nos meus favoritos. Não tinha o feito antes. Como pude? rs

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  4. Lu,

    Belo, teu texto.
    O tom.
    A poesia.
    A escrita.

    Tua prosa, não consegue se desvencilhar da poesia bonita que te veste.

    Quero bis!

    Beijocas.

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  5. Por mais que seja narrativa eu vejo sinais de poesia no seu texto.. lindo desde o começo!
    baci.

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  6. Olá, Luciana...
    Desculpa invadir teu blog, mas é importante.
    Vim aqui pra uma missão muito importante. Peço que leia os meus dois últimos posts e, se possível, divulgue.
    Obrigada.

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  7. já deve ser a décima vez que leio esse texto e deve ser esse mesmo tanto de vezes, que não percebo que estou lendo, mas sim sentindo cada palavra, vendo cada movimento, que fôra narrado nessa cena, obrigado por nos presentear com essas experiencias

    beijão

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  8. *0*
    vo virah tua fã desse jeito guria! xD
    amei esse texto! *-*
    bjones ;*

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  9. "Como se a tempestade externa fosse projeção de seu interior. "

    Pois em palavras algo que sempre arranhou na minha consciência.
    O texto é lindo, parabéns!

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