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Caixa Preta



As palavras simplesmente foram brincar de esconde-esconde no brejo, só pode. Sumiram todas, viraram confusão e depois vazio, nada mais. É tudo um tanto estranho, pois elas até chegam à mente, formam frases miúdas, projetos de textos, mas não chegam às pontas dos dedos. Acho que elas se perdem na corrente sangüínea, pegam a veia errada e vão parar sei lá onde.

Essa falta já ultrapassou a questão de sobrevivência e está virando questão de honra. Qualquer dia explodo de tanto acumular afetos e não conseguir expressá-los. Gesticulo, falo pelos cotovelos, choro e silencio, mas parece que ainda falta algo. Sabe como é? Preciso elaborar as coisas com palavras, preciso expor, gritar, chorar e amar através das palavras. Preciso ser mais eu, mais nós e também preciso me sentir mais últil e produtiva. Mas não consigo, é estranho e beira o engraçado, o riso desesperado e dramático, quase uma crise histérica.

Sinto muita vontade de escrever, mas onde foi parar minha capacidade? Ciclo seco, fase vazia, preocupações com o resto do mundo que não envolve o blog. É, pode ser. Mas escrever minhas grosserias ou minhas coisas fofas, cheias de mimimi, fazem uma falta gigante. Preciso voltar. É, repito como mantra, preciso voltar, preciso voltar, preciso voltar... Mas voltar para onde? Para mim, creio eu.


Imagem: daqui.

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"Onde você está indo com esse rosto triste?
Não se esconda como um oceano que você não pode ver,
Mas pode sentir..."
(Dave Matthews Band - "Where are you going?")


Me escondo no silêncio, na ausência das palavras que se tornam transparentes diante do que sinto e na falta de gestos. Falta o toque, o afeto. Mantenho-me longe, em uma parte do mundo que supostamente só eu conheço e me tranco. Sete chaves. A voz não sai e o corpo move-se apenas o necessário, falta ânimo, sobra cansaço.

Conversamos em silêncio. Você lê meus olhos que não brilham mais e tenta me trazer de volta para a parte do mundo que nos pertence. Não consigo expressar, mas você entende a minha subliminaridade, minhas vontades estranhas e tudo que não consigo dizer. Apenas sinto, sinto muito e ao mesmo tempo parece que nada sinto.

Canso do mundo e me dou por vencida. Me distancio sem notar, fujo do teu abraço e te beijo sem o calor de antes. Me recuso a baixar a guarda, me tranco para me defender, mas do inimigo errado. É aí que você me diz verdades, me faz reconhecer e enxergar, me tira da estática e me faz chorar. Me traz de volta e depois me faz sorrir novamente, quebrando todo o silêncio que me consumia.



Imagem: daqui.

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Há tempos em que a gente parte mais do que chega, pensa mais do que faz e chora mais do que sorri. Tempo onde as tempestades parecem não ter fim e, por mais que o sol brilhe do lado de fora, por dentro parece que sempre chove e faz frio, apesar de haver também um pequeno cobertor que aquece nesses dias de verão-inverno.

Há tempos em que a gente sente raiva, muita raiva e até quer matar alguém só para ter o prazer de fazer outra pessoa sentir o que sentimos. Nesses tempos, bate um desânimo, o mundo fica um tanto dark e a gente só quer saber de dormir, dormir e, para variar um pouco, dormir.

Há tempos também em que a gente sente uma puta vontade de sumir, virar poeira e sair flutuando por aí, sem destino e sem dono, apenas ao sabor do vento. Dá vontade de mandar o mundo inteiro para o inferno, jogar tudo para o alto e esquecer que família, faculdade e trabalho existem. Em tempos assim, tudo que a gente quer é paz, sossego, abraço apertado e alguém que fique sempre ao nosso lado, ouvindo nossas lamentações e fazendo a gente esquecer cada uma delas.

Há tempos em que a gente fica parecendo folha em branco, um pouco vazio e sem brilho. A gente esquece que esperança existe e que, apesar da vida parecer um eterno deja vu, algumas coisas nunca são do mesmo jeito.
 
 
Imagem: daqui.

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Recifense, 29.
Psicóloga, canceriana com ascendente em sagitário. Viciada em café, tentando achar um rumo na vida.

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