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Caixa Preta



- Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
- Natural é encontrar. Natural é perder.
('O dia que Júpiter encontrou Saturno' - Caio F. Abreu)


Ontem a dor não chegou e as cenas ficaram congeladas diante dos olhos dela. A bebida continuou no copo e as palavras continuaram guardadas no silêncio da voz que não saiu. Foi simples e rápido, porém marcante. Encontraram-se por acaso a alguns metros do chão e os olhares se encontraram para nunca mais se perderem.

Ele estava de branco por que branco é calma e isso era tudo que precisava na sua vida tumultuada sete dias por semana. Ela também estava de branco, não por opção, mas por que era a única cor que lhe cabia. Foi a primeira pessoa que ele viu ao entrar. Parada na varanda, olhando estrelas e misturando-se à imagem da noite já caída. Próximos um ao outro pareciam personagens do mesmo quadro. Combinavam, apenas.

Nas entrelinhas do tom de voz, liam-se silenciosamente com a intimidade dos que já se conhecem mesmo sem se conhecerem. Poderia ter sido em outra vida, alguma dimensão desconhecida ou outro planeta inexplorado. Talvez seus signos combinassem e no meio de todas as linhas de algum mapa astral estivesse escrito que se reencontrariam. Vinte anos, provavelmente.

Ele disse que os olhos dela pareciam duas estrelas maduras que despencaram do céu quando cansaram de iluminar os humanos. Decidiram brilhar apenas para uns poucos que tivessem sorte de olhá-la de perto. Ela disse que o cabelo dele era exatamente da cor do céu noturno, um cinzaescuroquasepreto. Ele falou que queria beber e fumar à vontade e por isso saiu de casa. Ela simplesmente não tinha casa e queria encontrá-lo já faz muito tempo. Havia saído da vida dele antes mesmo de entrar, pela tangente, em uma tarde fria e um acidente de carro.

Seus corpos não se aproximaram e nem trocaram carinhos além dos contidos em seus olhos e sorrisos. Na condição em que se encontravam, não precisavam mais disso. Ao final da noite não ficariam juntos, procurariam um pelo outro nos corpos de outras pessoas e não se encontrariam. Ele sentiria saudade dela na manhã seguinte enquanto ela já sabia com era ter saudade dele. Se perderiam hoje para se encontrar em algum outro lugar. No infinito, onde as linhas paralelas se encontram.


Imagem: daqui.


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"Um dia só me bastaria pra fugir
Pra anos-luz daqui
Mas tenho o sangue vulgar
Volto a ficar
Perto demais p'ra enxergar
"
("Um dia, um ladrão", Pato Fu)



Nas voltas que o mundo dá, o tempo passa e a gente às vezes teima em ficar. Sabe do que eu tô falando? É tipo aquela ligação simbiótica que a gente não consegue se livrar e até gosta. Faz bem, completa. Foi bem naquele dia que me dei conta de que não poderia mais me livrar das amarras nas quais estava me prendendo espontaneamente. Tracei meu destino, provavelmente. Sempre doce, foi o que coloquei em mente e me joguei. Foi e ainda é, in-va-ri-a-vel-men-te doce.

Aqueles olhos não me deixavam escapar. Mantinham-me ali, no cárcere de seus espelhos que refletiam minha própria imagem. Era incrível. Não sabia se era a aparência, o jeito de segurar o lápis ou a forma como suas pálpebras me guardavam na sua memória. Eu não sabia nem quem eu seria dali em diante. Só conseguia saber que era ali que deveria ficar para sempre, mesmo que ele não exista.

De todos aqueles momentos e detalhes que gravei aqui, ficou o gosto do café sempre quente e o cheiro daquele perfume inconfundível do teu pescoço. Fiz de tudo um pouco e muito do que digo foi inventado. É essa minha estranha mania de me esconder e revelar nas palavras de um jeito que confunde quem lê. Quero te confundir agora, sabia? Fazer surgir aquele olhar-interrogação de quem estava acreditando em tudo e agora não sabe se acredita.

Cara, posso dizer que isso tudo foi uma viagem muito doida. Já o resultado, foi o melhor possível. Viciei. Tipo droga, sabe? Já tentei tantas vezes fugir disso tudo, correr para a 'vida real' e toda essa terra de gigantes que está do lado de fora. Mas nunca consigo, meu sangue sem-vergonha não me deixa ir embora. Fico nessas idas e vindas, nos altos e baixos dessa montanha russa, mas sempre volto ao ponto de partida. É impossível viver sem isso. E o mais louco de tudo é que nunca me arrependo de ter tentado fugir. Me arrependeria somente de não conseguir voltar. Porém, eu demoro, mas sempre volto.

Separa um livro da estante, coloca mais um prato na mesa e esquenta a cama, que eu tô voltando.



Ps: 'eu voltei, agora pra ficar, porque aqui, aqui é meu lugar'. Pausa estratégica, quase fim da Caixa, MAS, cansei e voltei. Não dá pra ficar longe disso aqui.
Ps²: ontem, 17/04 o Caixa Preta completou 2 anos de existência (momento comotion)!!
Ps³: vou retomando a leitura dos blogs de vocês e agradeço a quem se preocupou (Jayam, ainda vai me bater? xD). Beijomeliga!



Imagem: 'you are coming back to me', por~dcamacho


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"Que me perdoem, se eu insisto neste tema
Mas não sei fazer poema
Ou canção que fale de outra coisa que
Não seja o amor
"
('Você Abusou' - Diogo Nogueira)


Está muito claro e explícito que, a cada dia, não sei fazer outra coisa que não seja pensar em nós. Se acordo pela manhã, é para te ver e se planejo um bom dia é apenas para te dar o meu melhor sorriso e beijo matinal. Se passo batom, é para deixar teus lábios brilhando e poder brincar com isso logo em seguida. Se penso em algo que me deixe feliz, logo me vem a imagem do teu sorriso e o brilho dos teus olhos depois de momentos de amor. Se tem algo que me diverte, são nossas conversas idiotas sobre qualquer bobagem que nos faz sorrir em demasia. Se espero um dia de chuva, é para poder me molhar junto contigo. Se ouço alguma música, é de ti que lembro. Se leio algum livro, é a ti que procuro em cada entrelinha do texto diante de mim. Se na minha boca mora algum nome, é o teu de sabão em pó que tanto amo por achar original e legal. Se imagino algum futuro, só consigo te enxergar vivendo nele comigo. Se todo dia fico pensando em juntar as rimas, é contigo que vou subir no altar. Se escrevo alguma coisa, nosso amor preenche cada linha. Se quero falar alguma coisa, só sei falar que te amo até o fim.




Ps. um tanto ausente, admito, mas lendo sempre que posso. Beijogeral!

Imagem: daqui.

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Recifense, 29.
Psicóloga, canceriana com ascendente em sagitário. Viciada em café, tentando achar um rumo na vida.

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