Personagens do meu eu...

by - 00:39

Imagem: 'people', por ~vankevich




Cheguei muito cedo na praça aquele dia. Lembro-me como se fosse hoje, a boina na cabeça, os cabelos grisalhos, a bermuda quadriculada e as sandálias de couro. Um velho tradicional. Sentou-se na praça como se estivesse na sala de casa. Encostou a bengala no banco e espreguiçou-se. Foi aí que vi uma tatuagem velha em seu braço, Mary, foi o que li.

Pus-me então a imaginar o velhote, a quem chamei Antônio (pois pra mim este sempre foi um nome de velho), em seus tempos de mocidade enamorado pela bela Mary. Talvez tenha sido marinheiro, e viajado o mundo até que voltasse para encontrá-la. Talvez depois do nascimento do seu primeiro neto tenha se tornando um velho tradicional, ou não. Talvez não seja nada disso. E Antônio se foi, ou como quer que se chame.

Lembro-me nitidamente de outro dia na mesma praça. Uma moça sentada no banco próximo ao meu. Era alta, usava um óculos escuro, cabelos castanhos na altura dos ombros e um livro na mão direita, chamei-lhe de Rita. Uma moça como outra qualquer. Tentei desvendar para onde olhava por trás daquelas lentes que impediam de ver a cor de seus olhos ou o mínimo movimento deles, talvez olhasse para mim de soslaio ou admirasse outra parte qualquer. Tirou-os e pôs-se a ler, não alcancei as letras da capa a ponto de decifrá-las... Talvez lesse uma crônica atual da Lya Luft ou uma obra épica como o Werther de Goethe.

Hoje, nos poucos momentos em que consigo pensar na minha vida, são dessas pequenas manias que gosto de me lembrar. Penso nos milhares de Antônios e Ritas que fantasiei em todos esses anos até cair aqui. Lembro da garota do parque e seus cachos dourados, da madame em sua roupa de ginástica fazendo cooper com seu pequeno poodle, dos rapazes de branco que me arrastaram para esse lugar, do qual nunca mais saí.

Estou nesse hospital psiquiátrico e talvez muitos o vejam como um marco para o fracasso em minha vida, porém, não vejo desta forma. A diferença diante dos outros faz de mim um vencedor, ultrapassei as barreiras entre estranhos que se cruzam nas ruas. Conheci pessoas sem conhecê-las realmente. Criei-as como personagens e elas tornaram-se, enfim, minhas amigas. Foi assim que escrevi o livro da minha vida, sendo eu autor e mero coadjuvante neste cenário.



- Palavras de Luciana Brito e Marco Schiavo -



Ps: Marquinhooooooo!! Amei escrever contigo... ótima parceria, fluiu muito bem. Brigadinha por me escolher! ^^

Você também pode gostar

11 comentários

  1. Muito bom poder escrever contigo Lu.
    Um abraço grande, do amigo

    Marco Schiavo.

    ResponderExcluir
  2. Seus textos como sempre encantam pela riqueza de detalhes... vc escreve de forma a fazer com que nos sintamos dentro dos seus pensamentos, e isso é maravilhoso! Estava com saudades daqui, fico feliz em voltar!

    Beijos!

    ResponderExcluir
  3. O Vinicius está coberto de razão. Os detalhes conseguem fazer com que imaginemos a cena com perfeição, como se lá também estivessemos.
    Só você, Luciana, só você.
    Um texto melhor que o outro, sempre.

    Eu fico assim, nesse estado de contemplação quando encontro idosos. Seja no supermercado, numa praça, na rua.

    Lu, flor. Além de aparecer aqui pra ler você, vim tbm avisar que o blog "Nós", do qual eu fazia parte com outro rapaz, que na época era meu namorado e hoje não mais, foi excluido por mim. Como você sempre nos visitava por lá, fiz questão de te informar.
    Mas, eu continuo nessa vida, escrevendo nas paredes, nos cadernos, nesse blog.

    Beijo enorme!

    ResponderExcluir
  4. Linda sua interpretação do viver...

    Confesso que de vez em qunado também crio meus Antonios e minhas Ritas...

    Gostei muito de ter vindo aqui.

    Beijo grande,

    Solange

    http://eucaliptosnajanela.blogspot.com

    ResponderExcluir
  5. que texto,lindo,cheio de encanto,com detalhes tão lindos...foi possivel está em cada ambiente foi possivel ao te ler imaginar também os Antonios e as Ritas

    ResponderExcluir
  6. Nossa! *-*~ ... Otimo texto!!Parabens! aos Dois!!, MArco escreve muito!!
    Lu meu amoR!! Escreve muitoo!!
    nossa otimo mesmo!


    amo *-*~

    ResponderExcluir
  7. "Conheci pessoas sem conhecê-las realmente..."

    Isso de fato é real, 'conhecível'.

    O que cativou-me a atenção foi o fato dos nomes [Antonio, Rita...] Um nome pode significar e muito a personalidade de uma pessoa. Não digo o nome que a pessoa é chamada e sim o nome que ela própria se intitula. Isso faz diferença. Quando tivermos ciência de quem somos poderemos enxergar além do muro e mais que contemplar, poderemos conhecer o outrem também.

    Muito bom vir até aqui.

    ResponderExcluir
  8. Ficou lindo mesmo.
    Parabéns pros dois!

    Bjus!

    ResponderExcluir
  9. ...pequenas manias! Olha só, entrei, li e gostei muito da narração com descrições!
    Seja numa hospital psiquiatrico ou em qualquer outro lugar, voar pelos pensamentos, criar e imaginar cenas e atos, são sempre um bom conforto para a alma!

    Parabéns!

    Beijos

    ResponderExcluir
  10. Não sei se porque tô lendo, mas o texto de vocês, no fim, ao falar do hospital, me lembrou muito a narração do personagem de Chico, em "Leite Derramado". Lembranças, sempre atuais. Antonios, Ritas, Lucianas, Marcos...

    A vida é bem por aí. E num banco de praça, moram os melhores espectadores.

    Beijo, Luluzita.

    ResponderExcluir
  11. Lindo texto a quatro mãos. Sintonia perfeita e sincera em letra e ritmo. Muito bacana.

    ResponderExcluir