Do interior de si mesma

27 de janeiro de 2009 //





“Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.”


Estava sentada na varanda de seu apartamento. Décimo segundo andar. O vento frio da noite tocava-lhe o rosto como uma pluma. Ela estava calma e era toda pensamentos e sentimentos. Um pequeno emaranhado confuso, porém lúcido, era como ela se sentia. Talvez estivesse enlouquecendo silenciosamente. Talvez estivesse somente em um momento mais complicado. Talvez, talvez...

Sua vida corpórea e poética resumia-se, no momento, aos versos do poema. Sentia-se a Ismália da atualidade. Ah, que pretensão!


O prédio era sua torre. Do alto dela, via a pequenez de tudo que estava abaixo dela. Vidas pequenas e incansáveis. Porém, ela estava cansada da sua. Um cansaço morno. Um momento feito em banho-maria, lentamente, até que chegou ao dia de hoje.

Ela queria, queria muito. De tanto querer, só os sonhos lhe alimentavam. Ela queria a lua do céu e queria a lua do mar. Mas como tê-las, se uma é reflexo da outra? Precisava sentir-se única.

“No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…”

Perdeu-se no sonho de um dia ser alguém. Perdeu-se no sonho do amor, da vida, da amizade. Ela queria, mas sentia-se estranha. Era mais do que isso, era incompreendida. Nas suas cores, gestos, toques e retoques, ela era toda sentimento.

Agora, parada na varanda de sua torre, ela sentia-se parte do universo. Do universo de si mesma. Ela queria ser livre. Ter a liberdade azul de quem é um pouco dona de si mesma. Liberdade para amar como mereciam seus amados e ser amada como ela merecia.

- “O amor é o chão da liberdade”. (Ela libera com voz suave como veludo, uma frase que lhe vem em mente)

Queria ser livre para amar em toda a sua intensidade. A represa de seu amor estava prestes a transbordar e ela nada poderia fazer. Neste momento, seu amado dorme no quarto próximo da varanda. Estavam juntos há poucos instantes. Foi quando começou a lembrar-se do poema e foi para a varanda.


Os olhos dele lhe vinham em mente. Olhos cor de mel, suaves como uma pintura e ao mesmo tempo tão expressivos. Ela sentia o amor rebentar-lhe as fibras do coração. Amar era doloroso e prazeroso ao mesmo tempo. Para ela, isso era a perfeição.

“E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…”


Debruçou-se sobre o parapeito da varanda. A altura lhe fascinava. Ela sabia quer não era um anjo, apesar de sentir-se como um. Ela não era perfeita, jamais seria. A terra, o concreto lhe chamava. Estava prestes a perder a própria vida sem perceber. Iria voar. Ser livre por alguns segundos, até chegar ao chão e sentir o impacto do que era estar viva e de repente morrer. Debruçou-se mais. Foi quando uma voz de tom grave e tocante como música, chegou aos seus ouvidos.

- Amor, senti falta da sua presença ao meu lado. Volta pra mim.


Desceu. Olhou os olhos de mel do seu amado e voltou para si mesma. Voltou para ele.



- Luciana Brito -



- Os trechos utilizados no texto são do poema "Ismália", de Alphonsus de Guimarães.

6 comentários:

  1. Muito... Muito... muito boa associação do poema simboslista com suas palavras..!!

    bjoo.. =**

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  2. já havia lhe dito que o texto + o poema tinham ficado perfeitos, eu gostei muito, muito bem editado, ambos se complementam, parabens mais uma vez

    beijão Lu

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  3. Muito bacana o mix de texto com poesia, se encaixaram mto bem, parabéns!

    bjs!
    Renata

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  4. "A amizade é um amor que nunca morre!"

    Autor: (Maykon Rodrigues)
    Fonte:
    http://www.frasesnaweb.com.br/amizade/

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  5. ficou bonita a sincronia com o poema de Alphonsus, que por sinal adoro esse poema, descobri-lo alguns anos atras em uma aula de literatura...

    Bonito o jeito como você usa as palavras, e como fez essa sincronia.

    Cheiro.

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