Solidão e projeção...

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Um trecho de “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe:



“Certamente que sim, pois sendo da nossa índole compararmo-nos a todas as coisas e comparar todas as coisas conosco, a nossa felicidade ou a nossa desdita dependem dos objetos desse confronto; de sorte que nada é mais perigoso para nós do que a solidão. Nossa imaginação, levada pela sua própria natureza a exaltar-se, e, ainda, excitada pelas figuras quiméricas que lhe oferece a poesia, dá corpo a uma escala de seres onde ocupamos sempre um lugar ínfimo. Tudo quanto se acha fora de nós parece mais belo, e todos os homens mais perfeitos do que nós. E isto é natural porque sentimos demasiadas as nossas imperfeições e os outros sempre parecem possuir precisamente aquilo que nos falta. Em conseqüência, nós lhes acrescentamos tudo quanto está em nós mesmos e, para coroar a obra, concedemos-lhes também certa facilidade miraculosa que exclui toda idéia de esforço. E eis esse bem-aventurado mortal convertido num conjunto de perfeições por nós mesmos criadas. Ao contrário, quando perseveramos em nossos próprios esforços, apesar da nossa fraqueza e dificuldades, progredimos mais lentamente na porfia onde outros empregam a vela e o remo... Em suma, a gente sente o que vale quando alcança os outros na reta, ou mesmo os ultrapassa”.



Até que ponto a solidão é perigosa? Por que ela é perigosa?

Podemos notar as respostas disso nas palavras de Goethe que foram colocadas acima. A solidão pode vir acompanhada de baixa auto-estima e isso afeta o sujeito, fazendo com que ele entre em um estado de maior sensibilidade.



Esse aumento de sensibilidade, mais a auto-estima em baixa são os maiores “alimentos” para os pensamentos ruins. Daí a solidão ser perigosa. Quando da baixa auto-estima, as palavras de Goethe caem perfeitamente, já que tudo que está externo à pessoa é considerado “melhor” e raramente a pessoa reconhece algo “bom” em si própria. As imperfeições parecem únicas no ser e tudo que poderia ser positivo em si acaba sendo projetado e somente reconhecido no outro (o que acaba sendo realmente mera projeção).



Na psicanálise, a projeção foi um termo inicialmente utilizado por Freud para definir o mecanismo da paranóia, porém mais tarde retomado por todas as escolas psicanalíticas para fazer referência a um modo de defesa primário, comum à psicose, à neurose e à perversão, pelo qual o sujeito projeta num outro sujeito ou num objeto desejos que provêm dele, mas cuja origem ele desconhece, atribuindo-os a uma alteridade que lhe é externa.



É dessa projeção que Goethe fala: “...nós lhes acrescentamos tudo quanto está em nós mesmos e, para coroar a obra, concedemos-lhes também certa facilidade miraculosa que exclui toda idéia de esforço.”



Então, talvez esse seja um dos grandes problemas da solidão e da baixa auto-estima quando atuam juntas. A pessoa encontra-se como que cega às próprias qualidades, e sair de tal condição é algo que exige muito esforço. Ajuda é necessária e bastante importante, é claro, mas a maior parte e talvez a decisiva, seja a do próprio sujeito enfrentar isso.

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